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Alimentando o animal:

Foto: Michael Reiter
04.2012 Berlim

Mauro aos 60:



"Pé esquerdo"
Mauro Cerqueira + Nuno Sousa Vieira
Galeria Nuno Centeno
Inauguração | Opening: 22.01.11 - 16h


22.01.11 << 26.02.11
Terça a Sábado das 15h às 19h
Rua Miguel Bombarda, 531
4050 - 383 Porto

O mauro inspira poesia!

Um mal entendido faz-te de cada jeito.
Lembro dos cachorros que escapavam
iam viver na rua de cima, sem asfalto.
Menos me assustavam as ausências
mas sim deixar a casa para trás
e se entregar ao caminho
que tinha uma vala tão grande na curva.
Os cães voltavam caramelos como o chão
e se eu ia lá chamar, mordiam-se as orelhas.
Às vezes tinha que atirar cascalhos,
fingida lançava, dissimulava pedras
pra que eles corressem de mim.
Foi o modo de ficarmos juntos.

Júlia Hansen

Michael




"Michael"
Mauro Cerqueira
Galeria Gomes Alves, Guimarães
Inaugura | Opening:
Sexta-feira às 22 horas
Friday at 10 pm
24.09.10 - 20.10.10

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“Michael”

O convite e a visita a um atelier apresentam sempre uma experiência curiosa e intensa.

Enquanto subo a longa escadaria do prédio envelhecido junto à Praça dos Lóios onde se encontram os trabalhos preparados para a próxima exposição de Mauro Cerqueira, este ao meu lado reforça, por diversas vezes, que já só faltam três andares para lá chegarmos. Este prédio, como muitos outros desta cidade, revela-se semi-devoluto. Poderíamos mesmo dizer que se encontra quase suspenso na sua arquitectura rígida de finais do século dezanove à espera de uma intervenção decisiva de restauro que o regaste à humidade dos fungos e às paredes amarelecidas e esfareladas dos cantos das salas. Assim, visto de uma das inúmeras janelas, o cenário de um tempo útil, próspero e promissor de uma cidade activa cedeu lugar a um desfilar de lojas e espaços abandonados que se revelam esventrados nos seus negócios ruinosos e empobrecidos. Aqui, neste amarinhado de vigas e ferros torcidos, acompanhado pelo arfar ensurdecedor das máquinas de perfuração de um edifício ao lado, chego finalmente ao piso onde através de pequenos corredores de acesso entro na sala de execução das obras.

A sala-atelier, com aspecto de improvisada, apresenta à direita uma longa mesa onde além de alguns recortes de jornais descansam diversos desenhos recentes de Mauro Cerqueira. Junto às duas paredes laterais, recortam-se um conjunto de obras em metal alinhadas com a verticalidade das paredes onde se reconhece uma estrutura tubular acentuada pela a sua forma trapezoidal. Lado a lado, seleccionadas por um olhar arguto e límpido do artista Mauro Cerqueira, estas estruturas tubulares apresentam-se revestidas de uma solenidade acrescida, quando, após uma atenção mais aprofundada nos revelam a sua origem e funcionalidades inicialmente previstas. Entre estes e outros objectos disponíveis, predomina uma luva colada à parede, que além de se apresentar gasta nos revela no interior do seu dedo indicador o frio do metal de uma navalha. Facilmente se reconhece que eram outros os desígnios iniciais destes objectos relativos à sua forma e função. No entanto, estas obras recuperadas para esta operacionalidade estetizante apresentam-se investidas de uma intensa e dramática narratividade. Valoriza-se deste modo o cuidado despendido pelo artista Mauro Cerqueira em reorganizá-las em novas configurações, despojando-as de qualquer artificialidade.

Indirectamente, Mauro Cerqueira invoca uma celebridade recentemente falecida dos anos 80, que nos seus anos áureos representou o fulgor cintilante de um futuro infinitamente próspero e festivo. Eram então tempos de abundância dos ritmos exemplares promovidos pelos videoclips iniciáticos da MTV, em que não faltava a notoriedade que se proponha revivalista do “ Walk on the Moon” dos idos anos 60, enquanto cosmopolitismo triunfador regido pelas cirurgias plásticas e as aparências néon de festividades universais.

Silvestre Pestana

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“Michael”

To be invited to an artist’s studio is always a curious and exhilarating experience. While I am climbing up the winding staircase of an almost decrepit building near the Praça dos Lóios, in Porto, where Mauro Cerqueira’s next exhibition is being prepared, he repeatedly tells me that we are almost there: “three flights left“. Just like many other buildings of the city this one is semi-derelict. We could even say that its stands miraculously suspended in its 19th century structure, eagerly waiting for some decisive refurbishing. It needs to be rescued from the crawling fungi and from its yellowing, crumbling walls. From one of its many windows we are able to gaze over a long gone cityscape of active usefulness, prosperity and promising times. In its stead, we see a sprawling line of abandoned storefronts and apartments, hollowed out spaces where ruinous and impoverished affairs used to occur. It is at the heart of this yarn of twisted iron bars, surrounded by the deafening sound of jackhammers from the building next door, that I finally reach the studio’s floor. I have to walk through narrow corridors to find reach the room where Cerqueira’s works are being created.

The studio room, very slapdash, has a huge table on the right in which you find newspaper clippings and recent drawings by the artist. Lined against the two sidewalls, there is a set of metal pieces, their horizontality mimicking the walls; among them we recognize a tube-like structure in the shape of a trapezoid. Next to one another and chosen by Mauro Cerqueira’s accurate and unimpeded gaze thesetubular structures seem to be wrapped with an additional solemnity, although a closer look will reveal their original pre-set functions. Amongst these objects and many others, one stands out in particular is a worn-down working glove stapled to the wall, and the cold, shiny flash of a razorblade protruding from the ripped tip of its index finger. It is not a difficult task to surmise the original ends of each and every object, considering their forms and functions. However, they have been recuperated to an aesthetical operatively and therefore they are carriers of an intense, dramatic narrativity. In this fashion, we are able to cherish the care with which Mauro Cerqueira reorganized them into new configurations, depriving them from all artificiality.

Mauro Cerqueira invokes indirectly a recently deceased 80s’ pop star, who back in his heyday was the representative of the gleaming vigor of an infinitely prosperous and festive future. That was the day and age o’plenty, of the exemplary rhythms promoted by theinitiates MTV music videos, filled with a notoriety that was reminiscent of the long gone 1960s’ “Walk on the Moon”, which could be seen as a triumphant cosmopolitanism under the aegis of the plastic surgeries and neon semblances of the universal festivities.

Silvestre Pestana

Tradução: Pedro Moura


"I'LL SLOWLY SLIP AWAY"

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